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2010-09-26

Script: playlist - pare de procurar, peça o que você quer ouvir




Eu gosto de música, gosto mesmo.

Quando eu era criança lá em casa era assim: meu pai gostava de rock e jovem guarda, minha mãe de sambas antigos e mpb, minha irmã conhecia todos os sucessos de todos os artistas das principais rádios da cidade. Quando tinha uma música que ela gostava muito, deixava o gravador de K7 em REC, PLAY e PAUSE, só esperando a hora que o locutor iria anunciar a música do momento, aí ela soltava o PAUSE um pouco antes e encontrar o timming pra cortar - e precisava porque as rádios começaram a dar fade in/fade out cruzando o final de um sucesso como começo de um jabaculê, sem falar quando o locutor anunciava o nome da estação do meio da música; então a gravação ficava meia boca, o locutor no começo, uma propaganda no final, mas bastava levar a fita pra um amigo dono de um poderoso stereo double deck  e o cara limpava a gravação em uma segunda fita. Na década de 80 era assim e o pessoal já dizia que as fitas K7 e o VHS iriam acabar com a indústria do entretenimento. Mas não acabou.

Naquela época eu tinha herdado de meu falecido avô, uma caixa de vinil com os dizeres dourados em caixa-alta "a história da música clássica". Aquilo era o meu tesouro e eu o ouvia sem parar, era totalmente diferente do que eu estava habituado, era forte, volumoso, inesperado. Veja só que coisa curiosa, na caixa deviam ter uns 21 discos, parece pouco hoje, mas eu levei anos para ouvir todos os 21.
Pensando nisso lembrei de uma conversa com um amigo historiador, ele comentou que na alta idade média quando alguém se referia à sua biblioteca de casa falava em uns 20 volumes. Curioso como mudam as referências. Tá certo que eles sabiam estes livros em seus coraç de cor e hoje em dia a gente mal lembra o que almoçou...

O CD só começou a se popularizar na virada da década de 90 e praticamente toda a minha coleção data daquela época: mpb, rock, metal, techno, uns clássicos mais arrojados e jazz, muito jazz. As lojinhas obscuras, importadores sinistros, os discos raros... Só tinha um probleminha, as mídias de cd (que diziam que durariam 100 anos) tinham uma durabilidade tão ruim quanto a fita k7. Enquanto as fitas cassete tendiam a se desmagnetizar com o tempo e os cds a descascar, tudo o que o vinil pedia era um espanador.


Toda mídia é um suporte material e toda matérica tende a sua decomposição. Mas o direito a ouvir uma determinada música foi adquirido quando o comprei, se tivesse comprado a mídia, não teria direito a reclamar quando a fita fosse inaudível.


- Sinto muito senhor, mas não posso trocar a sua mídia porque o que senhor comprou foi um rolo de fita magnética em um caixa de plástico e é exatamente um rolo de fita magnética em um caixa de plástico que você tem em mãos.



O que foi comercializado foi uma música, eu adquiri o direito de poder ouvi-la e tomar todas as ações de modo a preservar este direito, portanto se ela não durar em um cd, eu posso gravá-la em um fita, ou em outro cd, ou jogar em um gravador de vinil usb, ou deixar uma cópia de segurança em um arquivo digital.


Ah, o MP3: enquanto eu puder espetar uma HD nova em minha máquina, meus arquivos serão perpétuos. A primeira coisa que fiz foi gravar toda a minha coleção em 64Kbps, depois 96Kbps, 128Kbps, com VBR, em 256Kbps. Depois os discos de meus parentes, amigos, vizinhos... Até chegar um tal de napster e audio galaxy, fast track, torrents... Foram uns anos frenéticos e deve fazer uns 4 anos que praticamente não baixo mais nada. É hora de ouvir a coleção.
E aí, por melhor organizada que ela possa estar, começa a ficar chato encontrar uma música determinada. De vez em quando nem sei o que tenho, afinal são


$ find /mnt/arquivos/music/ -type f \( -iname '*[afmow][aglmpv4][acegiv34]' -print \) -o \( -iname '*[mf][pl][ea][gc]' -print \) | wc -l
20533


arquivos. Durante estes quase 15 anos de música digital, usei diversos gerenciadores de coleção. Todos que testei sofrem do mesmo problema, a coleção fica ordenada sob aquele software e uma vez que ele se tornar obsoleto, ou que o arquivo for aberto por outro programa, lá se foi a ordem. Então prefiro ordenar utilizando diretórios da seguinte forma:


[ESTILO]/[AUTOR]/[ÁLBUM]/[faixa]


Não quero procurar uma faixa quando sei seu nome, quero digitar "hendrix experience" ou "chico 78" e ouvir o disco procurado. Então fiz este pequeno script, modifique-o para seu sistema porque não fiz um configurador. Enfim,


se você souber o nome do arquivo, use a opção -f
$ playlist -f favorite things
$ playlist -f purple haze
$ playlist -f pelas tabelas

se você quiser tocar todas as faixas sob diretório contendo o padrão "Miles" e "Coltrane", basta
$ playlist -a miles coltrane
$ playlist -a ult exp
$ playlist -a goldberg
$ playlist -a bwv 988

Se você quiser tocar todas as faixas de áudio sob um certo diretório (recursivamente), basta
$ playlist -d diretório
$ playlist -d /mnt/torrents

Você pode ver e baixar o código aqui: http://pastebin.com/UNJc4wNa

[]s
/dev/movebo

2009-03-30

Google oferece músicas grátis na China

A China possui o maior número de usuário online do mundo: 300 milhões ou quase um quarto de sua população, ou quase a população inteira dos Estados Unidos (de acordo com o CIA FactBook). A jogada da Google visa minar a dominação do Baidu.com, o site de buscas mais popular entre os internautas chineses, com mais de 60% do mercado (o dobro do Google), algo que Lee Kai-Fu, presidente da unidade chinesa da companhia, atribui justamente ao fato do primeiro oferecer músicas gratuitas.

O Google vai permitir que internautas façam os downloads devidamente licenciados a partir desta segunda-feira (30/03) na China.

A receita gerada pelos anúncios inseridos no novo serviço será repartida entre o Google e as gravadoras.




“Os internautas terão à sua disposição downloads gratuitos, de alta qualidade e licenciados por gravadoras”, ele reiterou.

O novo serviço por enquanto inclui cerca de 350 mil canções – de artistas tanto chineses como estrangeiros – mas em breve esse número vai aumentar para mais de 1 milhão de faixas, de acordo com Gary Chen, CEO da www.Top10.cn, site de músicas que vai colaborar com o Google e que foi fundado pelo jogador de basquete Yao Ming.

Músicas de artistas da Sony Music, da Warner Music, da EMI e da Universal Music poderão ser baixadas pelos usuários do Google na China. Segundo Lee, não há previsões de expandir o serviço para outros países.

“Esta é nossa primeira tentativa de monetizar o mercado online na China”, ressaltou o presidente da Warner Music para Ásia e Pacífico Sul, Lachie Rutherford, que também preside a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).

Fontes:


2009-03-02

[copyleft] Tudo o mais


Achei um artigo interessante aqui, intitulado "Como matar a Indústria Fonográfica". Jens Roland tem 8 hipóteses para explicar o problema da indústria de entretenimento:

  1. A indústria de games e computadores tornou-se um terceiro e inesperado competidor;
  2. Os consumidores podem importar um produto evitando pagar o preço local;
  3. CDs e MP3s têm um baixo índice de degradação tornando a recompra de um produto coisa do passado;
  4. Graças à tecnologia digital não é mais absurdo criar o próprio estúdio, aparecem, portanto, diversos novos competidores aos "Big 4";
  5. Com a World Wide Web o sistema de distribuição digital (aka iTunes) botou antigo modelo, baseado em capas, caixas e caminhões, no chinelo;
  6. O número de rádios ultra-especializadas e canais de TV via demanda cresceu vigorosamente, a compra de um produto tornou-se opcional para o ouvinte ocasional;
  7. Há 15, 20 anos atrás os jovens se reuniam simplesmente para ouvir música, hoje há diversas alternativas de entretenimento e os jovens não se reunirão sem uma atividade intermediando a música: Guitar Hero, Rock Band, danceterias, shows...
  8. Roland acredita que a indústria se sabotou quando, ao invés de vender digitalmente apenas álbuns inteiros, passou a comercializar faixas individuais. Normalmente um músico tem duas ou três faixas "de trabalho", jabaculês músicas que são divulgadas ad nauseam nas rádios e canais de TV. Certamente esta divulgação pode se tornar bem custosa, de modo que a compra das faixas obscuras pagava pela divulgação das faixas de trabalho.
Apesar de não concordar em diversos pontos com Roland, por exemplo, os "finados" Napster e o Audio Galaxy são anteriores à prática comercial da música digital e já se compartilhava áudio por faixas, mas podemos tirar inferências interessantes. Não era incomum descobrir no álbum que havia uma terceira, sexta ou sétima faixas melhores que as de divulgação, isso vem se perdendo. Nossa geração só ouve, vê, lê... o que quer, tudo sob um click. Mas é indo a lugares que não esperávamos, é fazendo coisas que não queríamos, que acabamos por descobrir algo novo, diferente e, por que não, melhor.

Curioso, o marketing da minha geração tentava fazer-nos crer que havia um objeto de completude e satisfação: recordo de um outdoor de sapatos que dizia "você é o que deseja". Hoje, se está claro que O objeto não existe, que a completude não existe, que ninguém tem aquilo que lhe falta, a indústria tenta obturar a falta com a máxima "muito mais do mesmo - e agora ao seu alcance ;^)". É a lógica do excesso no lugar da falta. E restando a insatisfação sempre é possível comprar mais, comer mais, ver mais, ter mais... Ou não? E quando não? E se não fizer diferença nenhuma? O que fazer com a falta? Tudo o mais.

2009-02-24

[video] Good Copy Bad Copy

Aproveitando o início do julgamento dos fundadores do The Pirate Bay, Gottfrid Svartholm Warg (aka Anakata), Peter Sunde Kolmisoppi (aka Brokep) e Fredrik Neij (aka TiAMO) - acusados de facilitar a infração de Copyright pela Warner Bros, MGM, EMI, Colombia Pictures, 20th Century Fox, Sony BMG e Universal - recomendo um interessante documentário produzido em 2007 pelos dinamarqueses Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke, chamado Good Copy Bad Copy. Você pode vê-lo legalmente abaixo com legendas no nosso português, o próprio site original do filme aponta para seu torrent no Pirate Bay.



O filme discute o direito autoral, a cultura livre, o atual modelo de produção da indústria cultural, as cópias ilegais, o cinema nigeriano, o tecnobrega brasileiro, a licença creative commons, o Partido Pirata sueco...

Se quer saber a minha opinião, o rádio não acabou com a indústria fonográfica, a TV não acabou com o cinema, o VHS não acabou com a TV, as fitas K7 não acabaram com o vinil, o cd vai morrer e não acabou com o vinil, quanto mais o k7... e a Internet não vai acabar com a indústria.
Os produtores deveriam entender que:
  • (1) Se o formato digital não está atrelado a nenhuma mídia física não é possível conter sua proliferação. O arquivo pode estar em uma hd, como pode estar em um cartão microSD e é o mesmo arquivo: ele não se resume a sua mídia como a música entalhada no vinil se resume no próprio bolachão. Se possuo um arquivo posso legalmente mantê-lo, ele não é o plástico ou a fita magnética, é apenas um arquivo, um conjunto de informações no formato de dados. É este conjunto de informações que compro quando adquiro um disco, ou seja, a música; de uma fita um filme. Se adquiro um filme, posso fazer um backup dele, posso copiá-lo.
    • Quando alguém faz uma torta gostosa não costuma compartilhar sua receita? No Orkut as pessoas não compartilham suas vidas, no youtube seus vídeos, no eMule seus filmes, canções, livros prediletos; no software livre compartilhamos conhecimento, é da natureza humana. E se no software temos a GPL, a OSI... para as artes existe a licença creative commons.
      Mas se o músico pode abrir mão de direito autoral, sobre o que irá capitalizar? Se a música em si deixa de ser o produto qual é o novo produto? Um nome e sua reputação.

  • (2) Sua margem de lucro nunca mais será a mesma, ajuste-se ou fique para trás. Sem nos darmos conta alguém já achou o que será a solução (talvez o tecnobrega?) para este impasse e é melhor não ficar para trás.
    A TV Globo não é aberta? Não somos obrigados a assistir as famigeradas propagandas no meio da programação, do rádio? Por quê na web seria diferente? Sabemos que o artista recebe uma percentagem irrisória das vendas de cds e são cada vez mais comuns os MegaShows. Seja como for, os Beatles morreram e levaram seu modelo de produção consigo.
  • (3) É óbvio que as cópias ilegais diminuiram o lucro, os pequenos sabem muito bem disto, o problema é que os produtores passaram os últimos 10 anos investindo no que parecia certo e seguro, ou seja, mais do mesmo. Sem se arriscar o cenário pop caiu na mesmice e o grande exemplo hoje é a MTV: quando apareceu se rogava arauta da juventude e da "liberdade", hoje dá dó. O produtor parece perdido enchendo buracos da programação com reprises americanas, seu grande veículo, o video-clipe, não gera mais market share. E o fundamental, é incapaz de se comunicar com seu target, com os jovens. Não é apenas a indústria fonográfica que está em crise, a música pop está em crise, a MPB está um deserto - para a Pitty fazer sucesso a concorrência tem que estar muito baixa (pra quem não conheceu Elis, Joplin, Billie, Ella, Sarah, Piaf, Dietrich, Clementina de Jesus, Selma do Coco, Elizeth Cardoso, Elizabeth Schwartzkopf, Maria Callas, Cathy Berberian... fica difícil ter um parâmetro de comparação).
  • (4) Curioso será ver que as músicas mais marcantes da nossa década sequer estão passando pelas rádios, afora o pessoal independente com seus sites, torrents, podcasts e pocket shows, afora as raves e os clubs, vivemos um incrível e fervilhante período para a música contemporânea. Ainda vai levar algumas décadas até que os músicos populares entendam que a própria música pode introduzir seu tempo, que seu suporte material é o som e não um conjunto de escalas e compassos.

Segundo o site lalai, o TPB é o maior tracker de torrents no mundo e existe desde 2003. Em 2006, teve seus servidores invadidos pela policia sueca, o que deixou o site fora do ar por 3 dias. Eles são acusados de facilitadores porque nenhum arquivo fica hospedado lá, os verdadeiros infratores no caso seriam os 22 milhões de usuários que usam o site. Na segunda-feira (2009-02-16) foram retiradas 50% das acusações contra o site TPB.